Afinal, o que é que um ROC verifica?
Saiba o que um Revisor Oficial de Contas verifica numa auditoria, como são selecionadas as áreas a analisar e qual a diferença entre auditoria, fiscalização e controlo interno.
Joaquim Alves
10/17/20265 min read
Quando uma empresa é auditada, é frequente surgir uma dúvida muito simples:
O que é que o Revisor Oficial de Contas verifica, afinal?
Por vezes, existe a ideia de que o ROC funciona como uma espécie de fiscal, procurando irregularidades, infrações fiscais ou documentos incorretos.
Não é esse o objetivo de uma auditoria financeira.
O trabalho do ROC consiste, essencialmente, em obter evidência suficiente e apropriada que lhe permita formar uma opinião independente sobre as demonstrações financeiras da entidade.
Ou seja: avaliar se as contas, consideradas no seu conjunto, apresentam de forma verdadeira e apropriada, em todos os aspetos materiais, a posição financeira e o desempenho da empresa de acordo com o referencial contabilístico aplicável.
O ROC verifica todas as operações?
Não.
Uma auditoria não consiste em conferir uma a uma todas as faturas, todos os recibos ou todos os lançamentos contabilísticos.
O trabalho é planeado em função dos riscos de distorção material das demonstrações financeiras.
O ROC começa por conhecer a entidade, a sua atividade, o contexto em que opera, os seus processos e o sistema de controlo interno relevante para a preparação da informação financeira.
Com base nesse conhecimento, identifica as áreas em que existe maior risco e define os procedimentos de auditoria adequados.
Por isso, duas empresas com a mesma dimensão podem justificar procedimentos de auditoria diferentes.
Que áreas podem ser analisadas?
A extensão do trabalho depende de cada entidade, mas é habitual que a auditoria abranja áreas como:
Vendas e prestações de serviços
O ROC pode verificar, entre outros aspetos, se os rendimentos registados correspondem a operações efetivamente realizadas, se foram reconhecidos no período correto e se estão adequadamente mensurados e apresentados.
Clientes e outros valores a receber
São analisados os saldos existentes, a sua antiguidade, a possibilidade de cobrança e a eventual necessidade de reconhecer perdas por imparidade.
Podem também ser solicitadas confirmações diretamente a clientes.
Compras e fornecedores
A auditoria pode procurar determinar se as responsabilidades estão integralmente registadas, se pertencem à empresa e se foram reconhecidas no período correto.
A confirmação externa de saldos de fornecedores é um dos procedimentos que pode ser utilizado.
Inventários
Podem ser analisadas as quantidades existentes, a sua valorização, a rotação dos artigos e a existência de produtos obsoletos ou de difícil realização.
Quando relevante, o ROC pode acompanhar as contagens físicas realizadas pela entidade.
Ativos fixos
São considerados aspetos como a existência dos bens, a sua aquisição, alienação, depreciação, vida útil e eventual necessidade de reconhecimento de imparidades.
Bancos, financiamentos e tesouraria
O ROC pode obter confirmações diretamente das instituições financeiras, reconciliar os saldos bancários e analisar empréstimos, garantias, responsabilidades e condições contratuais relevantes.
Gastos com pessoal
Podem ser testados salários, contribuições, retenções, férias, subsídios e outras responsabilidades relacionadas com os trabalhadores.
Impostos
As contas relacionadas com impostos também integram as demonstrações financeiras e, como tal, podem ser objeto de procedimentos de auditoria.
Contudo, a auditoria financeira não é uma inspeção fiscal.
O objetivo continua a ser avaliar se os valores reconhecidos nas demonstrações financeiras estão adequadamente registados, mensurados e divulgados.
Estimativas contabilísticas
Alguns valores das contas não resultam de uma simples fatura ou documento.
Imparidades, provisões, vidas úteis, responsabilidades futuras e outras estimativas exigem julgamento.
Nestes casos, o ROC avalia os pressupostos utilizados, a informação disponível e a razoabilidade das estimativas efetuadas pela gestão.
E o controlo interno?
O ROC procura compreender os controlos internos relevantes para a preparação das demonstrações financeiras.
Por exemplo:
quem autoriza pagamentos;
quem regista as operações;
como são efetuadas as reconciliações bancárias;
como são controlados os inventários;
como são aprovadas compras e vendas;
como são protegidos determinados ativos.
Este conhecimento ajuda a avaliar os riscos e a decidir que procedimentos de auditoria devem ser realizados e com que extensão.
Importa, porém, distinguir duas coisas.
Numa auditoria normal às demonstrações financeiras, o objetivo não é emitir uma opinião autónoma sobre a eficácia global do sistema de controlo interno.
O controlo interno é analisado na medida em que é relevante para avaliar os riscos associados à informação financeira e planear adequadamente a auditoria.
O ROC procura fraudes?
A responsabilidade pela prevenção e deteção da fraude cabe, em primeiro lugar, à gestão e aos responsáveis pela governação da entidade.
Mas uma auditoria também considera o risco de as demonstrações financeiras conterem distorções materiais resultantes de fraude.
Por isso, o ROC mantém ceticismo profissional, avalia fatores de risco, analisa operações ou comportamentos pouco habituais e executa procedimentos destinados a responder aos riscos identificados.
Isto não significa, contudo, que uma auditoria financeira tenha como finalidade realizar uma investigação criminal ou garantir que qualquer fraude existente será necessariamente detetada.
O objetivo é obter segurança razoável de que as demonstrações financeiras, no seu conjunto, não contêm distorções materiais, quer estas resultem de erro quer de fraude.
Como é que o ROC obtém evidência?
A prova de auditoria pode resultar de diversos procedimentos.
Entre outros:
inspeção de documentos;
confirmações externas de bancos, clientes, fornecedores ou outras entidades;
observação de procedimentos;
recálculos;
reconciliações;
análise de contratos;
testes a operações;
procedimentos analíticos;
comparação entre períodos;
análise de acontecimentos posteriores à data das contas;
questionamento da gestão e de outros responsáveis.
A natureza e extensão destes procedimentos dependem dos riscos identificados e da relevância dos valores envolvidos.
Então o ROC verifica números ou verifica a empresa?
Em rigor, verifica informação financeira sobre a empresa.
Para compreender essa informação, precisa inevitavelmente de compreender uma parte relevante da própria atividade da entidade.
Um valor contabilístico raramente pode ser analisado isoladamente.
Uma redução das margens, um crescimento anormal dos clientes, um aumento dos inventários ou uma alteração significativa dos financiamentos pode exigir compreender o que aconteceu no negócio.
É precisamente esta ligação entre contabilidade, atividade económica, risco e evidência que caracteriza uma auditoria.
O que acontece quando é encontrada uma diferença?
Uma diferença não significa automaticamente que as contas estejam erradas.
O ROC procura primeiro perceber a sua origem.
Pode resultar de:
uma diferença temporal;
um documento ainda não contabilizado;
uma classificação contabilística inadequada;
uma estimativa;
um erro;
ou uma situação que necessita simplesmente de esclarecimento adicional.
Depois de obter e avaliar a evidência necessária, determina se existe uma distorção e se esta é relevante para as demonstrações financeiras.
Quando necessário, a situação é discutida com a gestão e com o contabilista certificado e pode originar uma correção das contas.
O ROC substitui o contabilista ou a administração?
Não.
As funções são diferentes.
A gestão é responsável pela preparação das demonstrações financeiras e pelo controlo interno que considere necessário.
O contabilista certificado desempenha as funções que lhe competem na preparação e organização da informação contabilística e no cumprimento das respetivas obrigações profissionais.
O ROC atua de forma independente, obtém e avalia prova de auditoria e expressa uma opinião sobre as demonstrações financeiras.
Esta separação de responsabilidades é essencial à independência da auditoria.
Em síntese
O ROC não está na empresa para procurar falhas nem para desempenhar as funções de uma autoridade fiscalizadora.
Também não se limita a conferir documentos.
O seu trabalho consiste em:
compreender a empresa, identificar riscos, testar a informação relevante, cruzar evidência e avaliar se as demonstrações financeiras representam adequadamente a realidade económica da entidade.
É esta análise independente que permite ao ROC formar e expressar uma opinião sobre as contas.
Autor: Joaquim Alves
Revisor Oficial de Contas
